Noite de Ano Novo

Halle num papel pequeno, mas cheio de sentimentos

Noite de Ano Novo é como uma resolução de fim de ano: só possui boas intenções, que nem sempre são cumpridas

Todo ano-novo é a mesma coisa. As mesmas promessas, os mesmos rituais e, é claro, a mesma choradeira. Sendo assim, o complemento novo serve pouco mais do que um indício para mostrar que lá se foram mais 365 dias. Para esses que passaram, deseja-se que voltem ou que desapareçam depressa. Ou até mesmo que nunca tivessem acontecido.

Em virtude dessa mesmice, por que um filme que retrata esse ritual de passagem deveria ser tão diferente do de costume? E por essa lógica, Noite de Ano Novo (New Year’s Eve, 2011), que estreia nesta sexta-feira em todo o país, não poderia ter mais sucesso, pois repete com destreza tudo o que o espectador já viu.

O filme é nada mais que o dia 31 de dezembro na vida de uma porção de personagens. Cada um deles em uma situação sortida. Como é comum em filmes compostos por vários segmentos, é tudo muito irregular – algumas histórias são boas e outras, dispensáveis. Do lado promissor, tem-se Hilary Swank comandando o principal evento da Times Square: o globo de luzes, que é erguido à meia-noite. Aqui, ele enguiça horas antes e ela precisa contornar a situação. Para isso, faz um discurso emocionante sobre perdas, ganhos e a oportunidade de recomeçar.

Além dela, Sarah Jessica Parker precisa driblar o desejo da filha Abigail Breslin de passar o rompimento do ano com um garoto, deixando-a de lado. Zac Efron, também, é bem utilizado na fração em que ajuda uma tímida mulher de meia-idade (Michelle Pfeiffer, quase irreconhecível) a realizar algumas resoluções antes da virada do ano em troca de ingressos para uma badalada festa. E por fim, dois casais disputam o prêmio de 25 mil dólares dado pelo hospital à primeira mulher que tiver o filho a partir da meia-noite.

Já na parte menos sólida, principalmente pelo excesso de açúcar, Ashton Kutcher não suporta o feriado até que fica preso no elevador do prédio com a jovem cantora Lea Michele (de Glee) e muda completamente de ideia. Ou o caso de Robert De Niro que, por mais ótimo ator que seja, tem aquele papel ingrato do homem à beira da morte que se arrepende das escolhas da vida.

Há também aqueles que ficam no meio do caminho, que é o caso da chef de cozinha Katherine Heigl que foi deixada depois de ser pedida em casamento pelo músico Jon Bon Jovi, que agora quer reatar após perceber que ela é a mulher da sua vida.

Quem dirige é Garry Marshall (de Uma Linda Mulher e do intragável Idas e Vindas do Amor – no mesmo estilo deste, só que muito inferior). E Marshall é um diretor que nunca vai deixar de lado os chavões do gênero. Por bem ou por mal, seus apetrechos sempre estarão em suas obras.

O que chama atenção, porém, é que vez ou outra o diretor consegue imprimir momentos singulares dentro de um filme similar. É o caso da enfermeira interpretada com emoções genuínas por Halle Berry, que vive numa situação impressionável – embora comum nos EUA. E por mais que essa seja apenas uma partícula já exposta como trama noutros filmes, a cena é tão bem dirigida e interpretada que se destaca dentro de tantas outras.

É verdade que não há nada de novo no filme, que por vezes é tão superficial que seus propósitos tornam-se um tanto óbvios. Mas de um modo geral, é tudo muito doce e até mesmo ingênuo. Noite de Ano Novo é quase uma analogia às próprias resoluções de ano-novo – todas elas cheias de boas intenções, mas que nem sempre são cumpridas.

Angelo Capontes Jr.

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