Looper: Assassinos do Futuro

No originalíssimo e arrebatador Looper,
presente e futuro se contrastam

Degradante, é a sociedade daqui a três décadas na visão do diretor e roteirista Rian Johnson, em Looper: Assassinos do Futuro (Looper, 2012). O filme que estreia nesta sexta-feira em todo o país já ganha pontos por sua trama para lá de inédita – e igualmente bem elaborada.

Na história, um grupo de assassinos se encarrega de “limpar” o futuro por meio de homicídios cometidos através de viagens no tempo. Um looper é um contratado para matar e, mais do que isso, livrar-se dos corpos. As vítimas vivem sempre trinta anos à frente; são capturadas, reenviadas para o presente e, em alguns segundos, executadas com um tiro certeiro.

Depois de ser tirado das ruas, o jovem Joe (papel do fantástico Joseph Gordon-Levitt, coberto por maquiagem) economiza metade do dinheiro que ganha como looper para, depois de largar a profissão, viajar para a França e viver – assim dizendo. Passa, então, o tempo vago ou aprendendo francês ou na companhia de Suzie (a ótima Piper Perabo), uma das várias prostitutas que constituem o lugar.

Subitamente, os loopers começam a sumir do mapa por conta da própria função – como não veem o rosto dos alvos, só descobrem na hora do pagamento; as barras de prata são substituídas por ouro (uma espécie de dispensa do cargo). Restam a eles, então, 30 anos a partir daquele exato dia em que o trabalho fora concluído.

O ciclo tem sua grande falha quando Joe, já no futuro – e na pele de Bruce Willis –, consegue fugir dos homens que o capturaram e mataram sua esposa. Viaja no tempo não para completar sua profecia, mas para exterminar o responsável pela chacina contra os loopers e, desse modo, alterar o passado e trazer sua mulher de volta. Tarefa não muito fácil, já que ele mesmo, ainda novo, precisa terminar o serviço e viver as décadas seguintes (ou seja, matar a si mesmo no futuro para existir no presente).

Looper, em síntese, é de quase impossível explicação. Mas parte de sua grandiosidade se dá por isso: se em palavras, nem tudo é entendível, Johnson se encarrega de fornecer todas as peças do quebra-cabeça durante a montagem. E se parece demais, o americano desafia o público ao injetar outros dois elementos em sua trama: a jovem Sara (Emily Blunt, soberba) e seu filho – peças-chaves na resolução da brincadeira.

É o terceiro trabalho do diretor (depois de A Ponta de um Crime e do delicioso Vigaristas), regado de estilo, violência e personalidade. Nada se repete durante as duas horas do longa. Cada enquadramento é único, cada perseguição é munida de fôlego interminável e, acima de todas as singularidades, cada reviravolta impressiona mais e mais o espectador.

Ainda curioso – e igualmente trágico – é o olhar que seu criador tem do futuro. Nele, o que já assombra a humanidade (a desigualdade, a criminalidade e a incerteza) só tende a crescer. Ao mesmo tempo, seu desfecho aconselha que nem tudo está condenado; ainda deve haver alguma crença no caráter do ser humano e na sua vontade de consertar o que está quebrado.

Abotoado por uma sequência de deixar os nervos em frangalhos, o próprio filme é uma fagulha de otimismo ao gênero ação. Mais que um dos melhores exemplares dos últimos tempos, Looper é uma amostra de que nem tudo que é bom (no caso, excelente) precisa ser derivado. A originalidade, afinal, nunca saiu de moda – só andava em falta no cinema.

Angelo Capontes Jr.

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