Um Amor Verdadeiro

Ensaio sobre a reparação.

Como boa jornalista, Ellen Gulden (Renée Zellweger) deveria ter aprendido que toda história tem dois lados – pelo menos. Dessa forma, talvez, ela não se assustaria tanto a cada revelação de Um Amor Verdadeiro (One True Thing, 1998).

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Ellen tem uma carreira para lá de promissora – e fez por merecê-la. Por isso, fica deveras decepcionada quando, ao chegar à festa da família, recebe um puxão de orelha de seu pai George (William Hurt). Segundo ele, falta pulso a Ellen; e tal crítica não poderia vir de ângulo mais cortante, uma vez que Ellen idolatra o pai, também escritor.

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Já quando o assunto é Kate (Meryl Streep), que adora a filha e nunca a atacaria assim, o cenário muda. Aqui, não há reciprocidade: Ellen vê a mãe como uma dona de casa pirada, uma mulher que jamais serviu de referência a ela – que terrível, aos olhos de Ellen, passar horas assando um bolo, ou preparando um jantar especial para um comitê cheio de outras mulheres sem propósito.

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A certa altura de Um Amor Verdadeiro, o jogo se inverte: Kate descobriu um câncer incurável, e George não está sendo de grande ajuda – anda dormindo com suas alunas e quer que Ellen passe uma temporada em casa para ajudar a mãe. Ellen, é claro, desaprova a ideia: sua vida é sua carreira, que certamente sairá descompensada dessa história.

Vez ou outra, o diretor Carl Franklin abusa do sofrimento de suas protagonistas. Mas é difícil pensar em dupla mais talentosa e comprometida que Meryl Streep e Renée Zellweger – a segunda, por sinal, não perde um único momento.

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É esse envolvimento todo que torna arrebatadora esta pequena crônica sobre reconhecimento e admiração. No filme, Ellen demora a aceitar a verdade que segue seu percurso desde muito cedo. Só o faz quando finalmente entende que é esse também o seu próprio trajeto. E então percebe que sua chance de reparação – tão ingrata, mas tão necessária – chegara de fato.

Angelo Capontes Jr.

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